Sistema Único de Saúde deve acompanhar as mudanças no Brasil

Publicado por: Jornalismo - Prontuário de Notícias em 15/09/2010

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"Eu defendo um SUS inteligente, e não um SUS como dogma", afirma o pesquisador da ENSP Adolfo Chorny. Ele é pesquisador do Departamento de Administração e Planejamento em Saúde (Daps). Graduado em Administração de Empresas pela Universidade Estácio de Sá, ingressou na Fiocruz em 1981 ministrando a disciplina Planejamento de Saúde: elaboração de projetos. Recebeu o "Prêmio Opas de Administração 2006" (Paho Awards for Administration 2006), com indicação do governo brasileiro, que reconhece suas contribuições para o desenvolvimento e a inovação nas áreas de planejamento, administração e financiamento de sistemas e serviços de saúde, além de sua liderança diante dos desafios da saúde pública. 
        
Na entrevista, o pesquisador revela que a posição brasileira no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano não é importante, uma vez que os pesquisadores vivem sob a ótica de uma "deformação numerológica", destacando ainda que um dos principais problemas de saúde no país é a falta de cidadania da população. 
        

Confira, abaixo, a entrevista de Adolfo Chorny. 
        
Quais perspectivas o senhor apontaria para a saúde no século XXI? 
Adolfo Chorny:
 Se vou falar de perspectivas, a primeira coisa que coloco é uma visão particular. Não existe uma perspectiva objetiva, a perspectiva depende de onde estou olhando. Se, na física, eu tenho leis; nas ciências sociais, eu tenho as tendências. Uma tendência é produto do agir humano. Portanto, uma tendência modificável pelo ser humano. E por isso preciso me nortear por valores que vão compor meu marco de referência com o qual estou enxergando a realidade, que vão me colocar, no futuro, metas que quero alcançar. 
        
Então, para pensar a saúde no Brasil no século XXI, eu tenho de pensar em cidadania. Hoje, não temos cidadania no Brasil. Temos uma cidadania regulada, ou seja, nem todos os habitantes do Brasil têm o mesmo grau de cidadania ou de equidade. O cidadão tem os mesmos mecanismos a seu conhecimento para lutar pelo que ele acredita ou necessita. Quando não tenho isso, tenho de ter outras instâncias, que pode ser o Estado, partidos políticos, igrejas, que vão traduzir e informar aos cidadãos o que eles querem. 
        
Outro elemento que eu penso ser importante numa discussão sobre perspectivas é saber como avaliar o cumprimento dos objetivos ou propósitos que estão colocados para a saúde. Atualmente, a gente vive em uma "deformação numerológica". Hoje, não importa o quem ou quando, só importa em que posição estou colocado. Como qualquer brasileiro ou argentino sabe, se não está em primeiro lugar, o restante não interessa. Só para saber, o Brasil está na 75ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano. O IDH é um indicador de resumo, mas que todo o mundo discute em que posição está. O Brasil, há vinte anos, estava na 82ª posição e hoje está na 75ª. O que isso significa? Absolutamente nada. Porque a diferença é de milésimos ou décimo de milésimos e não diz nada. 
        
Nós estamos perdendo conhecimento por trás de falsas medições. Uma medição implica na existência de um aparelho analógico que possa transmitir uma dimensão física em uma escala contínua. Indicadores não medem. Só qualificam, ordenam, mas não mensuram nada. Nós temos de tentar uma compreensão que vá além dos números, que traduzam a visão de realidade. Temos de objetivar as coisas que estamos falando. 
        
E como pensar a saúde no Brasil neste século XXI? 

Adolfo Chorny: Para pensar a saúde no Brasil no século XXI, eu tenho de pensar no mundo no século XXI, porque nós temos uma dependência tecnológica, uma dependência científica e uma dependência correlacionada ao resto do mundo. Não somos imunes ao que acontece fora. Quando se identifica que temos hélio no planeta para mais vinte ou trinta anos, isso traz um impacto em tecnologia na área de saúde que nós devemos nos preocupar. A medicina faz uso intensivo de hélio, que não é produzido artificialmente. Esse é um caso. Nós podemos lembrar que, em trinta/quarenta anos, o petróleo, se não se extinguir, terá um custo muito alto para ser comprado. Essa é outra preocupação que devemos ter. 
        
Outro problema que teremos pela frente é a alimentação. Se eu penso que por cada habitante da Terra eu tenho um acre que produz alimento - isso é só um modo de pensar -, à medida que se aumenta o número de habitantes do mundo, é preciso mais acres produzindo alimentos. Como alternativa, aumento a produtividade do acre para que alimente, em vez de uma, duas, três, quatro, vinte cinco pessoas. Para isso, preciso fazer uso de biotecnologia, agrotóxicos. Precisamos saber o que queremos para nossos netos, bisnetos. 
        
A saúde continua sendo voltada para a doença, e não para a promoção da saúde. Como o senhor vê isso? 

Adolfo Chorny: A lógica é quando você para de pensar na saúde de dentro da saúde e pensa na saúde como um componente da cidadania. A saúde, a educação, o trabalho, você tem um conjunto para determinar o papel que a saúde cumpre ou deveria cumprir nesse conjunto. Se eu isolo a saúde, eu fico olhando para o meu próprio umbigo. Tem de haver um horizonte, tem de integrar políticas sociais. 
        
Em vinte e dois anos de SUS, nós tivemos mais avanços ou mais problemas? 

Adolfo Chorny: Obviamente, só pelo fato de existir o SUS já é um avanço. Dentro desse avanço, há uma série de contradições e problemas. Mas será que esse SUS vai conseguir superar? Temos sempre de atualizar e ampliar os conceitos desse Sistema, pois, em vinte e dois anos, muita coisa mudou, o Brasil mudou. 
        
Sou partícipe do nascimento do SUS. Eu defendo o SUS, mas defendo um SUS inteligente, e não um SUS como dogma. O dogma fica bem na igreja, no templo, na religião. Na vida real, temos teorias e construções que dão conta de uma realidade que deve ser reformulada constantemente, porque o mundo não para como o tempo num jogo de futebol. Não adianta querer reverter o mundo para posições que já foram consistentes em épocas passadas. O SUS tem problemas. O SUS está sendo privatizado. O problema essencial está em recursos humanos.

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